AGULHAS - Celso Favaretto
A obra de Ricardo Ribenboim trata as grandes metrópoles como agentes aglutinadoras de signos, codificados por uma ideologia mercantil e tecnológica. O artista recria zonas de densidade que se opõem à dispersão gerada pelo fenômeno urbano. Centrífuga, totemizada, monumental, a instalação "Agulha" foi concebida para percorrer diferentes lugares; como se fosse tentáculo irradiador da estratificação da sua história, em busca de um lugar na cidade e no mundo, querendo-se ao mesmo tempo sem lugar. Parodoxal. Daí seu percurso, seu deslocamento, seu diálogo com cada lugar em que passa. Em Genebra, o ato de enterrar a "Agulha" remete ao fechamento da identidade; persegue o rastro de um poder arcaico, reage ao encadeamento das coisas; remete à idéia da morte resistindo ao seu caráter irreal e fantasmático num ato metafórico, Proustiano, em busca da pureza perdida. "Agulha" contaminada, "Agulha" contagiante, estrategicamente colocada no Parque da Organização Mundial da Saúde, em Genebra. Em São Paulo, fincada numa parede, a "Agulha" se multiplica em cinco peças e com fios anexados numa linha que remete ao trançado de tecidos, à costura propriamente dita, aos restos de panos retirados das ruas, prováveis rastros de mendigos ou retalhos do passado do artista; remete ainda ao cerzido de meias que abrigaram pés que se deslocaram por muitos quilômetros. Nos faz lembrar de Suassuna em "O Pagador de Promessas", outra linha, por exemplo, feita de gravatas aludindo às costuras políticas.
UM PERCURSO: PERCURSOS - Frederico Morais
Em 1993, Ribenboim introduziu um outro signo em seu repertório temático-formal, ao implantar, no asfalto da Via Anchieta, uma agulha de alumínio polido, com seis metros de altura. Recolhida depois de algum tempo, e já abrigando em seu perfil as interferência do tempo e do público, sua agulha ganhou maior visibilidade, ao integrar a mostra internacional “The Edge of awareness/O limite da consciência” promovida pela “Art for the World”, que desde o ano passado vem circulando diversos países, o Brasil inclusive. O objetivo dessa mostra, comemorativa do cinqüentenário de criação da Organização Mundial da Saúde, é estabelecer conexões entre arte e saúde, no âmbito de uma discussão sobre a melhorai da qualidade de vida e do bem-estar do homem no mundo de hoje. Explicando seu trabalho, no catálogo da mostra, Ribenboim, diz que “a distância entre a ação e as realidades sociais, cria um vazio conceitual e ético, uma terra-de-ninguém propícia à falta de higiene, à fome, ao abandono e às doenças. È aí, no seio desse espaço, onde falta a consciência, que intervém as propostas da arte, senão como remédio, ao menos como procedimento de cicatrização”.
No espaço de tempo que permeia as duas datas, as agulhas de Ribenboim foram implantadas em diversos contextos, as vezes portando seu complemento – a linha e/ou corda - e sempre relacionada a outros materiais e suportes: estruturas de concreto, muros de tijolos, piso, grama etc. Ao intervir no tecido urbano ou se apropriar de signos e/ou ícones do consumo, Ribenboim costurou novos e surpreendentes significados, reafirmando, ao mesmo tempo, uma espacialidade específica, que se define a partir de uma estrutura narrativa, envolvendo noções como percurso, trânsito, deslocamentos, transformações e articulações no tempo e no espaço.